Não estou perdida. Só não sei para onde vou.

Atualizado: 29 de Dez de 2020


Quando me separei tinha trinta e um anos e três filhos com 2, 6 e 9 anos.

Durante vários meses, sentia-me estranha. Um género de sensação que não tinha ainda reconhecido. Já me tinha sentido perdida várias vezes, confusa, perturbada, desorientada. Mas desta vez era diferente. Também já me tinha sentido orientada, encaminhada, focada, com metas. Mas também não era isso.

A estranheza incomodava-me um pouco. Os «a fazeres», desligavam-me disso.



Acho que nos primeiros meses nem dei bem pelo que sentia. Só em retrospectiva, quando o burburinho daquela estranheza começou a impor-se e a desgastar-me (talvez porque os «a fazeres» já se tinham restabelecido e a rotina, de alguma forma, já estava reorganizada), é que comecei a reconhecer que esta sensação já me acompanhava a algum tempo.

Nessa altura, quando me perguntavam como é que eu estava, não sabia bem o que responder. Sentia-me contraditória (e contrariada!). Sentia-me aliviada e o seu contrário, preocupada e o seu contrário, feliz e o seu contrário, confiante e o seu contrário, desiludida e o seu contrário, tranquila e o seu contrário, zangada e o seu contrário. Fosse qual fosse a resposta que desse, sentia-me uma fraude porque nada do que respondesse correspondia realmente ao que se estava a passar comigo.

Durante um tempo achei que ia entregando a primeira resposta que surgia: «Estou bem», «Estou exausta», «Estou apreensiva», «Estou a reestruturar-me». Depois percebi que não era bem a primeira resposta; a algumas pessoas dava um tipo de resposta, a outras dava o seu contrário. Havia uma amiga a quem sistematicamente dizia que estava bem e feliz, porque o sentia. A outra dizia, «já não me aguento mais, eu não sou isto», porque o sentia. Dizia a verdade às duas, mas não era toda a verdade o que dizia a cada uma delas.

O tempo foi passando. Não senti uma grande revelação ou revolução. Foi indo. Algumas coisas fui-me apercebendo que estavam a mudar, outras quando dava por isso já se tinham transformado. Não houve nenhum turn around. Houve caminho; às vezes com pequenas curvas, com subidas íngremes, outras discretas. A maioria foi suficientemente subtil para eu só notar quando olhava para trás, para o caminho percorrido e percebia «oh, o que aconteceu ali!?»… quando reparava nas cordilheiras que já tinha atravessado, nas pedras em que tinha tropeçado ou nas poças que tinha escorregado. Quando olhava para trás ficava sempre admirada com o trilho, quer por ser tão acidentado, quer por não o ter notado; e por perceber que, apesar de tudo, no seu todo, eu reconhecia-o: era o meu caminho.

Uma das curvas que tive consciência de ter feito, e que mudou o curso do caminho, foi quando disse a uma daquelas amigas:

«Estou farta de me sentir assim. Isto não sou eu.»

«Tu também és isso. Tu também és assim. Isto também és tu. És aquilo que pensas que és mas também és isto que pensavas que não eras».

Esta minha grande amiga tem tido sempre este dom de me apontar para coisas que não consigo ver ou não quero. O que já me fez odiá-la várias vezes, por uma fracção de segundo.

Estávamos ao telefone. Lembro-me de senti-lo na mão. De o afastar uns centímetros da cara, de sentir o ar fresco a ficar entre o meu rosto e o telefone e o calor que o aparelho emanava. A mente em branco. O coração contraído. Os olhos à procura de um sítio para olhar. Nada.

Nada.


Passados uns momentos, ouço-a:

«’tou?»

«Estou» (mas não estava).

Voltou a repetir como se o choque não tivesse sido suficiente:

«Tu também és isso. Tu também és assim. Isto também és tu. És aquilo que pensas que és mas também és isto que pensavas que não eras».

«Ok. Beijinhos. Depois falamos.»

«Um beijinho grande, minha querida».

Percebi que tinha acabado de contornar uma pedra gigante.

Talvez por isso, pouco tempo depois. Quando me perguntaram como estava, consegui responder um pouco mais de acordo com o que estava a sentir, incluindo os opostos:

«Não sei bem como me sinto. É estranho, sinto várias coisas ao mesmo tempo. Sinto-me feliz e triste. Sobrecarregada e aliviada».

Não me consigo lembrar quem me respondeu, mas sei que me disse:

«Estás perdida!?»

A mente disparou, o coração abriu, conseguia ver claramente:

«Não, não estou perdida. Eu sei onde estou. Só não sei para onde vou».

Esta foi uma ponte no meu caminho. A consciência de que eu estava onde tinha que estar, que sabia exactamente onde era e que não estava perdida, foi um lugar onde resolvi descansar. Um miradouro. Com uma vista incrível sobre o caminho da minha vida. Mesmo não sabendo para onde ir, isso não era importante naquele momento. Eu poderia ficar ali o tempo que fosse, até naturalmente ter vontade de começar a caminhar e a fazer caminho.

Eu sabia para onde não queria ir, o que era suficiente para não me deixar arrastar; tão pouco ir, só para não ficar. Também sabia onde estava e quem eu era, agora que podia ser também aquilo que não sabia que era.

Ganhei a consciência de que não saber para onde ir, não é estar perdida; estar perdido é não saber onde estou. Essa foi a ponte, depois do miradouro. A ponte para a confiança, para o descanso, para a pausa, para a espera. Deixei de ter pressa de saber para onde tinha de ir e de deixar de sentir o que estava a sentir.

E só isso, foi tanto.

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