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Os Papéis do Filhos

Quando não vemos realmente os nossos filhos?


"Filho és, pai serás; assim como fizeres, assim acharás."

"Filhos criados, trabalhos dobrados."

"Quem tem filhos tem cadilhos."

"Espera de teus filhos o que a teus pais fizeres." 

 

Muitas expressões populares revelam de forma muito simples e melodiosa, com rimas e cadências que parecem mais lengalengas do que lições relacionais, como os padrões de comportamentos entre pais e filhos estão intimamente ligados.


A Michele Engelke, terapeuta cognitivo comportamental e de EMDR Focada no Apego, faz uma abordagem muito interessante e, na minha opinião, muito útil sobre uma das formas mais comuns dos pais depositarem nos seus filhos as suas histórias, crenças, necessidades e medos: atribuindo-lhes Papéis.

 

A autora descreve nove “Papéis dos Filhos”.

 

O Filho Dourado é o filho “escolhido”, o privilegiado que agrega em si todas as virtudes esperadas de um filho exemplar (seja o que isso for para o pai ou para a mãe que o elegeu).

Beneficia de uma descriminação positiva, fazendo com que seja visto com olhos mais benevolentes, compreensivos e condescendentes do que os demais… frequentemente tem benefícios e privilégios materiais e/ou emocionais.

Por ser especial e ocupar um papel de elevado compromisso com as expectativas dos pais (ou de um deles), é frequentemente instrumentalizado tanto para servir de exemplo para os outros elementos da família, como para a triangulação e manipulação entre os pais e os irmãos. 

 

O Filho “Mini me” é o filho “clone” que, devido à semelhança física, ou a determinados maneirismos ou características de personalidade gera uma forte identificação com um dos pais, sendo visto e tratado como uma réplica.

Com pouco ou nenhum espaço para a sua individualidade, tem uma identidade constrangida e condicionada; espera-se dele que corresponda ao “modelo”, sem aspirações a ser quem realmente é.

Esta semelhança pode levar ao favoritismo ou, pelo contrário, à hostilidade dos pais, dependendo da relação que têm com o progenitor “modelo” do “mini me”.

 

O Filho “pequenino" ou "incompetente” é, geralmente, o filho mais novo, condenado a ser o elemento imaturo, incapaz e dependente, de quem ninguém nada espera a não ser que assuma o papel de ser cuidado e desresponsabilizado.

Crescer e emancipar-se não é uma opção, pois os cuidadores precisam de se manter nesse papel. Maturidade, responsabilidade e autonomia não estão nos planos que lhe foram destinados.

 

O Filho Bode Expiatório é a antítese do Filho Dourado: é aquele sobre quem recaem todos os “defeitos”. É “o pior” dos irmãos (e de toda a família), por diversos motivos, todos altamente subjectivos.

Este atributo justifica o abuso, o abandono afectivo e a negligência a que foi condenado.

Tipicamente, é o elemento mais consciente dos problemas relacionais da família; proactivo e frontal, questiona os padrões de funcionamento e valores familiares, o que alimenta ainda mais a rejeição. Não dos pais (ou de um deles), como dos irmãos que ainda estão em negação da sua realidade ou paralisados pelo medo engrossarem as fileiras da rejeição.


 

O Filho Doente é aquele que tem perturbações do comportamento ou do humor. Com ou sem diagnóstico de doença mental, é aquele que é considerado disfuncional e problemático, e muitas vezes tido como inimputável pelos pais e irmãos.

Como a Michele Engelke diz «o Filho Doente funciona como uma projecção dos problemas emocionais e vergonha dos pais, permitindo-lhes sentirem menos culpa em relação à sua própria saúde mental e ao efeito que tiveram na do filho».

 

O Filho Gatilho é aquele cuja existência, aparência, comportamento ou linguagem activam respostas traumáticas e altamente reactivas de um dos pais. Esta reactividade dirigida ao filho, pode acontecer por este estar associado a memórias incómodas e indesejadas (por exemplo, pode ter sido concebido numa fase conturbada da vida conjugal ou financeira dos pais).

 

O Filho Projeção receber a raiva e a vergonha redirecionada do pai ou da mãe, ouvindo

frequentemente “És tal e qual o teu pai/a tua mãe”.

Á semelhança dos Filhos Bode Expiatório e Gatilho, o Filho Projecção tem que lidar com a rejeição e estigmatização de um dos progenitores devido à sua alegada parecença com o outro.

Também pode receber projeção relativa ao progenitor que as faz, vendo no filho aquilo que são as suas próprias características não assumidas ou rejeitadas.

 

O Filho Indesejado personifica a gravidez indesejada, ficando reduzido a essa condição. Também ele é rejeitado e estigmatizado; sendo muito difícil fintar a rejeição, abandono e abuso. Frequentemente conhece a sua história de “persona non grata” e recebe o lembrete de que não deveria existir.

 

Ao contrário, o Filho Responsável, quase sempre com codependente, tende a ser valorizado; não pelo seu valor intrínseco enquanto pessoa, mas antes pelo seu papel de cuidador dos membros da família e guardião do sistema familiar. Esta devoção é feita à custa de (auto) negligenciar as suas emoções e necessidades, já que vai estando focado nas emoções e necessidades dos progenitores.

 

O favoritismo e o desprezo são duas faces da mesma moeda que resultam da dificuldade dos pais em tratarem os filhos com igual dignidade, de os verem como são e não como projecções idealizadas ou vilanizadas de si próprios.


O favoritismo e o desprezo por um filho geram nele ressentimento, culpa e vergonha, contaminam o ambiente relacional familiar, prejudicando a funcionalidade e qualidade das relações.

Mesmo quem parece colher privilégios, terá em prejuízo relacional imensurável.

 

Os papéis dos filhos dizem qualquer coisa sobre eles. Mas dizem, sobretudo, sobre nós, pais porque refletem os nossos padrões e automatismos (essas forças poderosas que operam a partir do nosso inconsciente e que contaminam a qualidade da relação que construímos com eles). Reconhecer esses padrões ou tendências, questioná-los e reprogramá-los é a porta de saída do condicionamento e a de entrada na segurança e integridade emocional.

 

Assumir papéis que correspondem às necessidades emocionais dos pais, tem um efeito dramático no desenvolvimento infantil, com custos elevados para a auto-estima e auto-imagem dos filhos.

 

Os filhos adaptam-se e interiorizam o seu papel como sendo a sua identidade.

 

Reconhecermos um padrão ou uma tendência que temos em relação a um dos nossos filhos, em específico, ou na parentalidade, em geral, é o primeiro passo para poder escolher fazer diferente.

 

Mais importante do que saber "Que papel ocupa o meu filho?",

é perguntar "O que me leva a relacionar-me com ele desta forma?"

 

Quando começamos a colocar estas perguntas, a parentalidade deixa de ser apenas sobre os filhos e passa a ser, também, um caminho de crescimento para os pais.

 


Ilustrações de Rodrigo Pereira

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