nem todas as batalhas se vencem na guerra


Nem todas as batalhas se vencem na guerra.


Tenho em mim um vocabulário bélico.


Não tenho qualquer consciência de o ter desenvolvido.


A escrever estas linhas sinto a armadura no peito, vejo o escudo encostado à secretária, do meu lado esquerdo, a espada do meu lado direito e o machado num coldre pendurado nas costas.

O meu lado guerreiro não quer saber da sua origem, não se pergunta de onde veio o vocabulário ou a necessidade, foca-se na premência de me fazer sentir pronta e no imperativo de se manter a salvo.


Tenho um carinho imenso por este meu lado.

Foi graças à sua coragem que dei passos fundamentais na minha vida, foi graças ao seu destemor que fiz frente a atitudes que punham em causa a minha integridade, mesmo quando vinham de superiores e o risco era perder o trabalho, foi graças à sua temeridade que continuei muito para lá das minhas forças…


O meu carinho e gratidão foram de tal ordem, que me convenci de que a vida era uma guerra a ser vencida: uma batalha de cada vez, a honrar cada derrota (para que não contaminasse o espírito aguerrido).

Foram tempos intensos, entusiasmantes até.

No preto e branco deste olhar, a vida era clara, simples e linear, batalha a batalha.


O espaço para descansar, tirar a armadura, pousar as armas e velar o amor imenso pelos meus, só tinha lugar dentro de muros, bem altos e bem defendidos.

Aí, despida da luta, sentia-me cansada daquele mundo a preto e branco, dos bons e dos maus, dos meus e dos outros, dos vencedores e vencidos, da luta e da paz…


Foi-me apetecendo estar cada vez mais tempo aí, onde o que arremessava eram sorrisos e olhares, onde o que envergava era presença e vulnerabilidade, o que defendia era a integridade e a autenticidade.

Fui ficando.


Vestir a armadura foi sendo mais pesado e incómodo, a convicção nas batalhas foi esmorecendo, a vida ganhou cores, as cores ganharam tonalidades e vi-me armada no meio de festas, mercados, jardins…


Já pousava as armas fora dos muros… via cada vez menos sinais de ameaças, aceitava cada vez menos convites para a guerra, via cada vez mais guerreiros e guerreiras em lutas que eram só as suas…

…e neles, vi-me: guerreira, corajosa, enredada nas lutas que são só minhas, nas batalhas que ninguém conhece.


Lutar e guerrear já não servia.

Numa batalha só minha, atacar-me é destruir-me, defender-me é alienar-me.

Numa batalha só minha, a guerra não é solução.


Na redenção da descoberta, o meu lado ansiã, sorriu. Puxou de uma cadeira para que a guerreira se pudesse entregar ao momento. Acariciou-lhe os cabelos e assegurou-lhe de que não ficaria mais sozinha.

Chegou então a ponderação tranquila, a escolha terna, a certeza de que nem todas as batalhas se vencem na guerra, a garantia de que a vida é para ser vivida… não é para ser guerreada.

Tenho as duas em mim, ansiã e guerreira, num par, mesmo que desigual em tamanho e em querer, ombro a ombro, por mim…


Nem todas as batalhas se vencem na guerra.

Nem todas as guerras são para guerrear.


Nem todas as batalhas são de guerra.

Há batalhas de amor e de desamor, há batalhas de paz e de transformação.

Há batalhas que não o são; danças desajeitadas de quereres e vontades; afirmações, mal afirmadas, de quem somos e do que nos permitimos, do que aos outros aceitamos.


Nem todas as batalhas se vencem na guerra.

Nem todas as guerras são para guerrear.

Nem todas as batalhas são de guerra.

Nem todas as batalhas o são.

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