Coitado do S.
Era a primeira vez que ia ficar na casa do amigo S.
Já tínhamos estado, todos juntos, várias vezes; tínhamos combinado lanches que se tornaram jantares e cafés que se prolongavam pela tarde dentro.

A sua parentalidade parecia tranquila, leve, divertida, despreocupada… «espetacular», segundo o meu filho. Não foram poucas as vezes em que nos comparou e desejou, em voz alta e em bom som, que pudéssemos ser mais parecidos com eles.
Foi, portanto, com entusiasmo que se preparou para pernoitar e passar o dia seguinte com o amigo. Depois do rol de recomendações e lembretes, lá foi.
No dia seguinte, à tarde, fomos buscá-lo. Tudo parecia igual, menos o seu entusiasmo.
Já no carro, o silêncio substituiu os reparos habituais sobre as qualidades dos pais do S.
Perguntei-lhe se tinha gostado.
Encolheu os ombros e relatou o que deve ter sido um sábado à noite de arromba para um pré-adolescente:
- Jogámos imenso computador, levámos fastfood para o quarto e comemos em frente ao ecrã, fizemos pipocas às duas da manhã e adormeci…
- Foi em grande! Noitada até às duas da manhã. Os pais do S. deixaram?
- Não. Não foi bem isso. Disseram «vejam lá a que horas se deitam» e foram para o quarto. Eu é que adormeci mais ou menos a essa hora. O S. disse que ficou a jogar até quase de manhã… dormiu até à hora de almoço. Os pais foram acordá-lo, para eu não estar sozinho…
- Ok… foi mesmo um fim de semana diferente – tentei relativizar, mas notei o seu desânimo.
Passados uns instantes de silêncio, disse num tom pesaroso:
- Coitado do S. Os pais deixam-no fazer tudo. Não controlam nada. Come o que quer, vai para a cama quando quer, faz os trabalhos se quiser, não precisa de arrumar o quarto ou de fazer a cama; se vestir roupa suja ou amarrotada, não o mandam trocar… na verdade, não o mandam mesmo fazer nada, nem ralham com nada…
Confusa, perguntei:
- Coitado? Porquê?
- Já viste? Não querem mesmo saber. Não se dão ao trabalho. Ele disse que era sempre assim.
Trocámos um olhar. Não sabia o que lhe dizer.
- Tenho mesmo pena dele… deve ser tão triste.
Não sei em quem bateu mais forte a sua conclusão. Se nele ou em mim.




Comentários