Becos

Atualizado: Mai 14


O menino falava de becos.

Falava permanentemente de becos.

Desenhava becos.

Pedia ao pai e aos avós para espreitar os becos que haviam por ali no bairro.

Se iam a um lugar onde nunca tinham estado, o roteiro da visita passava, invariavelmente, por inventariar os becos existentes.


O assunto era tão absorvente que, quando entrou para o 1º ano, não conseguiu aprender a ler. Não conseguiu aprender quase nada curricular.


Estava já no 2º ano quando o conheci. «Os becos são ruas sem saída», disse imediatamente, com ar deslumbrado.

O fascínio por becos mantinha-se. As dificuldades em aprender os conteúdos escolares, também.


As primeiras sessões foram um género de jogo da apanhada. Em que eu tentava apanhar as “brechas” na sua obsessão, para o ensinar a ler, e ele tentava fugir. Depois era ele a tentar “apanhar” a minha atenção para partilhar comigo a magnificência dos becos e eu a fugir.


As sessões eram espetaculares! Ambos apreciávamos a companhia um do outro e procurávamos corresponder ao que cada um mais desejava: partilhar com o outro uma coisa muito especial. Para mim, a leitura. Para ele, os becos.


O respeito pelas suas necessidades era central para mim. Utilizar os seus interesses para o motivar para a aprendizagem era evidente para mim.

Perceber que as suas necessidades e interesses estavam a prejudicar gravemente a sua aprendizagem e desenvolvimento foi-se tornando excruciante para mim…


«Os becos são ruas sem saída», continuava a dizer, com o mesmo ar deslumbrado. Os mesmos desenhos. As mesmas conversas. O mesmo sinal de trânsito. Os nomes das mesmas ruas.


Agora estava eu obcecada… por ele! As sessões estavam estagnadas, não conseguíamos sair de onde estávamos.


Acordei a meio da noite,

com um sorriso na cara.

Só por pudor, não me levantei imediatamente… para começar logo o dia e ir esperá-lo para a sessão, à tarde.


«Os becos são ruas sem saída», cumprimentou-me catorze horas depois de ter irrompido pelo meu sonho.

«Não, querido. Os becos têm saída!»

Estarreceu. A boca aberta. Os olhos nos meus. A conexão plena, pela primeira vez.


«Os becos são ruas sem saída», o deslumbramento tinha sido substituído pela dúvida.

«Não, querido. Os becos têm saída!» esperei que processasse e desse sinal que estava pronto para o resto.


«Os becos são ruas sem saída»

«Não, querido. Os becos têm saída!».


Inclinou um pouco a cabeça para o lado esquerdo e franziu as sobrancelhas. Era o sinal!

«Os becos têm saída. A saída é a mesma que a entrada.» dei-lhe uns segundos e continuei:


«É como na tua casa. Tu entras pela porta. A porta é a entrada. E sais pela mesma porta. A mesma porta é a saída. A porta da tua casa é a entrada e a saída».


...mais uns micro segundos para integração, mais um sinal para prosseguir:

«Nos becos, é igual à tua casa. A entrada é a mesma que a saída. A saída dos becos é a mesma que a entrada.».

«Os becos têm saída. A saída é a mesma que a entrada.», repetiu.


Aprendeu a ler e a escrever nesse mesmo ano lectivo. No terceiro e quarto anos conseguiu recuperar e passar para o 5º ano, sem dificuldades significativas. Foi sempre muito apoiado pelo pai. Estudavam juntos. Deixaram de precisar do meu apoio.


A mudança foi tão abrupta. Tão incrível.


Esta aprendizagem fi-la muito cedo no meu percurso. Tinha-me licenciado há pouco mais de um ano. Está em mim até hoje.


Recorro a ela quando estou com desafios com as crianças que acompanho, com os pais que apoio, com os meus filhos, comigo própria:

«Mafalda, em que beco estás? Qual é a saída?»


Quando sei por onde entrei, sei por onde tenho que sair.

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