Ter Paz, sem estar em paz, não é Paz.


Ultimamente, tem divagado em mim o conceito de “Pacífico”.


A propósito da Parentalidade Consciente e, sobretudo, do Divórcio Consciente a ideia de SER pacífico, FAZER de forma pacífica, ESTAR/IR/DIZER pacificamente… tem aparecido frequentemente.


Fui percebendo que, para muitas pessoas, “Consciente” é “Pacífico”.

Compreendo a associação. Por segundos até me reconheço na ligação Consciente-Pacífico, não fosse a inquietação e o desconforto que logo a seguir se instalam e poderia assumir a relação entre os dois conceitos (que não sendo sinónimos parecem da mesma área semântica…); não fosse a inquietação e o desconforto, teria aceite esta assunção.


Tem sido exatamente a inquietação e o desconforto que têm mantido esta ideia a pairar…


Onde há dois, para fazer Paz é preciso dois. Onde há três, são necessários os três. Onde há mil, são necessários mil… a não ser que se desmantele o grupo, criando subgrupos onde reina a Paz dentro de cada grupo e, com sorte, entre eles.

Também é possível que, entre três, dois podem fazer Paz e o terceiro, não a fazendo, sair ou ser anulado, circunscrito ao seu território pessoal de guerra. Mas, nesse caso, deixam de ser três, são 2 + 1… que, totalizando o mesmo, na matemática das relações, é bem diferente.


Curiosamente, ou não, para fazer guerra também é necessária a unanimidade entre dois, se são dois, ou entre três se são três… ninguém garreia sozinho (a não ser consigo próprio! da minha experiência, é das guerras mais sangrentas e as que, de facto, tendem a gerar as outras…).


Então, se para fazer Paz entre dois é preciso que os dois procurem manter ou construir essa paz, então:


1) por muito pacífico que alguém seja, por muito objetor de consciência que seja, se o outro decide que não haverá Paz, não haverá; felizmente, se houver uma forte intenção de não alinhar na guerra, também não haverá guerra; mas não estar em guerra não é “estar em paz”, pois não!?


2) um (ou ambos) pode comprometer-se em estar e agir de forma pacífica, não gerando guerra, atrito, conflito ou discordância; se o fizer à custa da sua integridade, do desrespeito pelos seus próprios valores e necessidades (ou dos valores e necessidades daqueles por quem é responsável: os filhos!), conseguirá estar em paz, mesmo havendo Paz? se amordaçar a sua vontade, a sua ética, moral, individualidade para manter um comportamento pacífico, conseguirá “estar em paz”? ser pacífico pode não querer dizer “estar em paz”, não é?


3) um (ou ambos) pode comprometer-se em estar e agir de forma pacífica, não gerando guerra, atrito, conflito ou discordância, se o fizer adoptando uma postura passiva, subjugada, subordinada, se não age, nem reage, se a ordem é a apatia, a indiferença, a obediência, o acatar, o não envolver-se, o não se responsabilizar… isto é Paz? mesmo que o comando para a apatia seja de tal forma poderoso que aniquila qualquer outra vontade ou desejo que não seja a indiferença e a passividade, isso é “estar em paz”? é ser pacífico?


4) Consensos e unanimidades forçadas, vontades e necessidades caladas, limites e integridades devassadas em silêncio, com consentimento impotente, é Paz?


5) Discordar, expressar, questionar, duvidar, denunciar é guerra?



Para “estar em paz”, nem sempre podemos ser pacíficos.

Estar em paz” é alinhar os nossos valores, a nossa integridade e os nossos recursos com os comportamentos que os preservam e respeitam.


Ás vezes, é preciso lutar, é preciso opor, é preciso berrar, é preciso contrariar, pode até ser preciso fugir, desistir, largar… “para estar em paz”. Ás vezes, é preciso guerrear para conquistar a Paz e poder “estar em paz”.


Para estar em Paz NUNCA podemos ser passivos. Podemos escolher não agir, podemos escolher não aceitar os convites para a guerra, mas jamais a passividade gera Paz… pode aparentar Paz, pode escamotear agressividade, pode silenciar dor e aflição mas jamais gera Paz.


Ter Paz, sem “estar em paz”, não é Paz.

Só “estando em paz”, há Paz.


Tenho visto pais, mães e profissionais procurarem consensos e pacificar processos e relações à custa do silêncio, da passividade.


Tenho visto pais, mães e profissionais guerrearem em nome da Paz, por caprichos, vinganças, retaliação… procuram ressaciar a dor que sentem, infligindo dor.


Tenho visto pais, mães e profissionais que apenas conhecem a linguagem bélica, outros que temem o conflito, que não conhecem a sua própria voz.


Tenho visto pais, mães e profissionais abraçarem lutas, para conquistarem a Paz e “ficarem em paz”.


Tenho visto pais, mães e profissionais a procurarem a Paz, mantendo-se conectados com o seu estado interior, tomando consciência dos seus limites e do limite da sua influência no comportamento do outro… que “ficar em paz” consigo próprio depende só de si, que conviver pacificamente com o outro depende também da disponibilidade e dos recursos do outro…


Ser Pacífico implica estar Consciente, estar activo (e não passivo), lidar com os conflitos (que são naturais e inevitáveis) “em paz” e com a coragem de assumir o limite da sua influência nas emoções e no comportamento da outra pessoa.

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