a agressividade verbal é um veneno que eu não vou beber


Pedi a uma amiga minha para me contar a história do seu divórcio.

A tranquilidade com que se referia ao ex-marido, a comunicação que pareciam ter, como aparentemente conseguiam combinar e articular-se no apoio aos seus quatro filhos deixava-me curiosa.

Esta mãe, profissional, aventureira, consegue dedicar-se à família, ao seu trabalho, ao desenvolvimento pessoal, ao desporto, às viagens… contando, se necessário, com o apoio do pai dos seus filhos; embora seja ela quem tem a guarda e com quem eles residem a maior parte do tempo. O meu interesse pela parentalidade não-conjugal, junto com a nossa proximidade e confiança, levaram-me a pedir-lhe para me contar a história do seu divórcio. A minha intenção era receber dela a sua experiência, pensamentos e aprendizagens, era poder conhecer o seu caminho e tentar reconhecer o processo que a trouxe até a este ponto: uma parentalidade não-conjugal suficientemente saudável, onde há espaço para os dois pais comunicarem e ajudarem-se, assumindo responsabilidade pessoal, com limites claros e sem ressentimento. Sabendo isto, ouvir a sua história ainda me deixou mais perplexa, maravilhada e confiante na capacidade das pessoas para construírem as relações que desejam ter, cuidarem de si e assumirem a responsabilidade pelos seus sentimentos, pensamentos e acções e, pelo caminho, manterem os olhos postos nos seus filhos. A agressividade verbal frequente e a distância que se foi instalando ao longo dos cerca de 12 anos de relacionamento, ditaram o desfecho. Um ano antes de se separarem, a decisão tinha sido tomada:


«não quero manter este casamento e tenho um ano para me preparar e enfrentar o que vier a acontecer».


Procurou apoio psicológico, identificou o estilo de comunicação destrutivo que o (ainda) marido usava, viajou, cuidou de si, estruturou-se e, quando se sentiu novamente alinhada consigo própria, sentou-se com ele e comunicou-lhe a sua decisão.

«Consegui cuidar de mim. Aquele ano fez-me perceber quão enxovalhada eu tinha sido. Ficou clara que a forma como ele comunica é destruidora para mim e, por isso, não iria permitir.»

Não foi fácil e o que estava para vir também não. Apesar do par de anos de divórcio litigante, para separação de bens, a clareza da vontade de uma parentalidade presente, pacífica e centrada nas necessidades das crianças permitiu-lhe manter o foco naquilo que era para si essencial: resgatar a sua vida e preservar o bem-estar dos seus filhos. Para isso, declarou a si própria: «Vou mostrar-lhe o respeito que tenho por ele.», independentemente do que faça.

«A agressividade verbal dele é um veneno que eu não vou beber.»

definiu quais eram os seus limites e quando eram ultrapassados anunciava «Eu sei que és melhor do que isto. Vou desligar. Falamos depois.» Mesmo que tivesse que desligar várias vezes o telefone, mesmo que tivesse que esperar bastante tempo até ele conseguir abordá-la de outra forma. «Eu conheço-o bem. Muito bem. Sei o que funciona com ele e o que não funciona. O que o acalma ou o perturba. A necessidade que tem de reconhecimento e de valorização. Vou usar isso a favor da construção da nossa nova relação.».

Evitou as armadilhas que sabia que os iam prejudicar e procurou os recursos que sabia que os iam ajudar. Manteve-se consistentemente ligada a estes princípios. Mesmo quando foi difícil, persistiu e manteve a visão do tipo de relação que queria ter e que os seus filhos assistiriam. Demorou tempo. Mas as coisas foram mudando.

Á discrição de alguns diálogos, de frente com a agressividade verbal por ela vivida, perguntei: «Como é que fazes para não beber esse veneno? Para não reagires no mesmo tom, não te deixares arrastar?» «Sinto-me em paz com ele. Sinto que já não sou eu quem o vai ajudar a mudar, agora. Que ele tem a sua história e faz as suas escolhas. Ele falar comigo como fala é uma escolha dele. Não tem nada a ver comigo.»

«Não levas pessoalmente?» «Não, não levo pessoalmente. É uma escolha dele. É dele. Não tem a ver comigo. Não é uma coisa para mim. É uma coisa dele. Quando passa daquilo que eu estou disposta a ouvir, desligo. Mais tarde ou mais cedo, ele acaba por decidir fazer de uma forma diferente e suportável para mim. A grande maior parte das vezes, já corre bem. Pontualmente, com assuntos mais difíceis/melindrosos, volta o padrão antigo. Pode ser necessário interrompermos a conversa 3 ou 4 vezes até conseguirmos falar.»

«Como fazes?» «Eu respeito-o e já aconteceu, de várias formas, precisar de ajuda e saber que posso contar com ele. Faço questão de me lembrar disso. Para algumas coisas, a sua opinião é importante e procuro-a. Com ele tenho aprendido muito sobre mim, neste percurso…» (Em silêncio, deixo-me ficar a sentir a admiração profunda por esta mulher. Por esta amiga.) «O que representa para ti a vida depois do divórcio?» «Reconstrução. Um caminho solitário, mais autónomo, mais independente, mais genuíno.»


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